Delmiro de Farias

Delmiro de Farias

por (Gerson Fleischhauer - O Farol - FE 15/05/2003)
Compará-lo com Mauá seria o seu maior elogio?

Sim, sob muitos aspectos. Sob outros, Delmiro estaria em vantagem.

Na origem modesta, assemelharam-se, embora fosse o nordestino bem menos aquinhoado. Na orfandade de pai, em uma tenra idade, também se assemelharam. Com Delmiro, um assassinato; com Mauá, morte gloriosa, na "Emboscada de Caimbocá", na Guerra do Paraguai. O Major Delmiro de Farias tem nome em rua de Fortaleza. As primeiras letras e até as segundas, se assim podemos chamar; precárias para os dois. A ilustração posterior e até o conhecimento de outras línguas vieram depois, com o convívio e com a necessidade.

Seus primeiros empregos, bem modestos: Mauá, na firma Pereira de Almeida, na rua Direita, n° 155, como empregado de balcão. Delmiro, condutor de trem na "Maxambomba", ferro-carril que circulava entre Recife e Apipucos. Ousados, ambos o foram. Mauá mundialmente e Delmiro, principalmente em Pernambuco e Alagoas. Mauá encontrou ambiente mais civilizado enquanto Delmiro desbravou a caatinga e fundou uma cidade. Ambos sofreram, além da inveja, uma feroz oposição política; o nordestino, do Prefeito do Recife e do Governador do Estado, ambos sob a sanha do Vice-Presidente; o gaúcho, dos gabinetes do Segundo Império e até do próprio Imperador.

"Se há entre nós um falido, o falido é S.Exa., político falido de senso moral, de escrúpulo, de critério e de tudo". Assim refutava Delmiro, declarações do Governador Sigismundo Gonçalves, do estado de Pernambuco.

"Infelizmente o período de prosperidade, até aquela época percorrido, fazia pesar sobre mim o que em nossa terra se chamava - inveja", dizia melancolicamente Mauá, já no fim da vida, no relatório a seus credores.

Ambos sofreram pressões criminosas estrangeiras, no sentido de eliminarem a concorrência nacional. Mauá teve o seu estaleiro da Ponta da Areia incendiado, com o propósito de deter a construção naval brasileira. Delmiro, além do incêndio do seu moderno Mercado do Derly, efetuado por seus opositores políticos, pagou com a vida a ousadia de concorrer com o tradicional fabricante de linhas de coser, estrangeiro.

A suspeita contra a "Machine Cotton", inglesa, se fortalece, quando se sabe da sua antiga intenção de comprar a Fábrica da Pedra e da sua destruição, após a morte do pioneiro, obtida, enfim, a sua compra. Mauá, pioneiro de ferrovias e hidrovias, Delmiro, pioneiro de rodovias. No campo social Delmiro superou Mauá e demostrou claramente que um empresário pode aliar ao lucro o bem estar dos seus empregados. Além de arrojado empresário, um sincero assistente social, um eficiente professor e um respeitado disciplinador. Criou uma sociedade isenta de política, de vícios e de crimes. Exigiu higiene corporal e de vestuário, expulsou jagunços, foi juiz, distribuiu penas e prêmios.

Possuia a Pedra, então, a melhor luz elétrica do Brasil, água encanada, fábrica de gelo, telégrafo, telefone, tipografia, vila operária, escolas para crianças e adultos, jardins, cinema, banda de música, ordem e justiça social (F. Magalhães Martins em "DELMIRO GOUVEIA, PIONEIRO E NACIONALISTA").

Água e luz eram distribuídas gratuitamente. Havia também, boa assistência médico-dentária, creche, licença-maternidade e mercado com preços controlados. Quando o pioneiro chegou ao local, em 1903, lá havia meia dúzia de casas. Quando faleceu, em 1917, a Pedra contava com 4.000 habitantes.

O débil sinal de progresso, encontrado por Delmiro, em 1903, foi a agonizante "Estrada de Ferro Paulo Afonso", construída por ordem do Imperador, não para servir aquela região pouco promissora, mas para dar trabalho e meios de vida a nordestinos, em época de seca, inaugurada em 1883, com um trem semanal. Conhecendo a precária ferrovia, resolveu Delmiro fixar-se na Pedra, parada obscura no trajeto de Piranhas à Jatobá.

Mauá e Delmiro tiverem permanente crédito comercial, graças à lisura e a pontualidade no cumprimento de seus compromissos. Mauá, com sua inteligência, sua ampla visão e seu tino comercial, estabeleceu-se até no estrangeiro e conseguiu formar fabulosa fortuna que, certa vez, socorreu até o Banco do Brasil. Delmiro, dotado das mesmas qualidades, conseguiu também razoável fortuna e credito estrangeiro, sempre que esteve em momentos de aperto.

Delmiro Augusto da Cruz Gouveia, nascido em 1863, no Município de Ipú, Ceará, possivelmente inspirou-se na beleza e no desperdício da água que despencava de 100 m, da Serra Grande (Bica do Ipú), para, no futuro fazer a sua maior realização: fundar uma cidade com indústria, saneamento, agricultura, pecuária e conforto, gerados na energia da cachoeira de Paulo Afonso, distante 24 quilômetros.

Suas grandes conquistas nasceram da sua inteligência, da sua persistência, do seu crédito e, principalmente, do seu ideal. Como Mauá, ele foi um empresário patriota.

As viagens ao exterior mostraram-lhe o progresso, abriram-lhe as idéias e firmaram-lhe o crédito. Aliou sempre à sua honesta vontade, a coragem física que ainda mais firmou a sua liderança. Várias vezes expôs seu corpo para desagravar ofensas e, principalmente, para incentivar os tímidos.

"Recife, seu nome de Veneza Americana não passava então, de uma fantasia de poeta, lugar onde a varíola e a febre amarela completavam a obra nefasta dos políticos" (F. Magalháes Martins em "Delmiro Gouveia, Pioneiro e Nacionalista").

Permanente e sempre oportuna a referência aos políticos!

A oligarquia dos governadores, em que se firmava o governo de Campos Sales era criminosa em Pernambuco. Mesmo o governo de Dantas Barreto que não era um inimigo e que sucedeu a Sigismundo Gonçalves, não acreditou em Delmiro, quando este pretendeu estender a energia elétrica ao Recife. Barrando todas as iniciativas do grande pioneiro, forçaram-no a abandonar sua querida Recife, onde começou como condutor de trens e evoluiu para forte comerciante de peles e couros, proprietário de moderno Mercado e da maior usina de açúcar da América do Sul, a "Usina Beltrão".

Falido, incriminado e perseguido, refugiou-se na obscura Pedra, a 24 quilômetros da Cachoeira de Paulo Monso e a 400 quilômetros do litoral.

Habituado ao bem viver e até ao luxo, condições proporcionadas por suas posses e pelo traquejo adquirido em várias viagens ao exterior, não vacilou, entretanto, em estabelecer-se no inóspito sertão, obedecendo aos impulsos de seus ideais e à sua visão de estrategista que sentia a importância daquela área, confluência de quatro Estados: Alagoas, Bahia, Sergipe e Pernambuco.

Desenvolveu a região e clareou as mentes dos seus miseráveis habitantes, mostrando as vantagens do progresso, abolindo vícios e ensinando a vida em comunidade. Sua vida intima, amorosa, se prejudicou, o fez somente a ele. Jamais desrespeitou seu próximo ou constituiu mau exemplo para a comunidade que fundou. Suas notáveis realizações e seus projetos inacabados foram fabulosos e, se mais tivesse vivido, quem sabe, atingiria a amplitude das realizações de Mauá.

"Primeiro me firmo nessa fábrica. Muita coisa virá em seguida. Oferecerei energia elétrica por esse mundo afora. Irrigarei as terras; nosso sertão remoçará. Estradas de rodagem e trilhos acompanharão a rede de alta tensão por Alagoas, Pernambuco e estes Estados Vizinhos... " (Pedro Motta Lima em "Fábrica da Pedra").

Não fosse ele assassinado tão cedo, nada impediria em breve, a instalação de uma potente estrutura industrial. Já estavam instaladas 4 turbinas de 2.500 H.P., para produzir energia para uma fábrica de tecidos, de sedas vegetais, de papel e até de cigarros.

Estavam em seus projetos: plantar fumo, cana de açúcar e produzir celulose do seu bagaço. Mandara analisar na Itália as nossas cactáceas xiquexique, mandacarú, coroa-de-frade, rabo de raposa, quipá, etc., bem como as fibras sisal, caroá, e paco-paco. Seus herdeiros não herdaram a fibra do pai e, logicamente, não tinham a sua experiência.

A cláusula da herança que lhes favorecia os bens e que o fazia somente quando completassem 30 anos de idade, foi revogada por um Juiz e assim, puderam eles negociar suas ações. Não aproveitaram o apoio de personalidades importantes admiradores de Delmiro, nem o Decreto do Presidente Arthur Bernardes, de 1926, grande patriota que, sentindo a feroz concorrência do produto inglês, elevara a tarifa de importação de 2.000 réis para 10.000 réis, por quilo.

Aquelas tarifas, em 1928, com o Presidente Washington Luiz, foram revogadas e, quando aquele Presidente se dispunha a atender aos apelos nacionais, no sentido de restabelecê-las, teria sido procurado pelo Sr. Henry Linch, Embaixador britânico e representante dos Rothschild, o qual transmitia a reação dos banqueiros ingleses que consideravam ato de hostilidade a barreira alfandegária contra a tradicional importação.

Precisando dos Rothschild para estabilizar a moeda, Washington Luiz cedeu, abandonando a fábrica de Delmiro à própria sorte. A fábrica de linhas foi, enfim, vendida em 2 de Novembro de 1929 - Dia de Finados - na Escócia, por 27.000 libras. Os vendedores, além de tudo, comprometeram-se, vergonhosamente, a não "entrar no negócio de linha", por 10 anos!

A "Enciclopédia dos Municípios Brasileiros", do I.B.G.E., afirma textualmente, no capítulo referente à "Cidade de Delmiro Gouveia": seu fundador "morreu barbaramente assassinado, vítima de interesses de trustes estrangeiros."

Em 1918, a Vila era conhecida como "Pedra de Delmiro". Mais tarde, simplesmente por Delmiro. Criado o Município, em 1952, foi-lhe dado o nome de "Município de Delmiro Gouveia". Como todo idealista, Delmiro foi um grande sonhador. Somente meio século depois, o seu sonho tornou-se realidade, quando, com todos os recursos de capital e técnica e não por aquele homem só, incompreendido e atraiçoado, foi fundada a "Hidro-Elétrica do São Francisco".

A emoção contemporânea, por ocasião do infeliz desenlace, está expressa na inspirada quadra de um cantador, que se espalhou pelo Nordeste:

"Quando o enterro de Delmiro
Foi pela rua passando,
Parece que a gente
Ouvia a cachoeira chorando ..."

Gerson Fleischhauer é Capitão de Mar e Guerra Reformado.

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