Bruno Pedrosa

Bruno Pedrosa

Antigo e moderno, tradicional e estravagante, reflexivo e extrovertido, simplesmente e extraordinariamente contraditório. Assim se apresenta ao mundo o homem e o artista Bruno Pedrosa. Não é possível falar da vida do homem sem falar da obra do artista, e nem viceversa se pode separar a sua arte da sua vida.

Nascido em 11 de janeiro de 1950 na fazenda Catingueira, no sertão brasileiro, Raimundo Pinheiro Pedrosa XIV, recebe o nome dos seus antepassados com orgulho, consciente desde criança que a sua família detém uma tradição secular que o liga às terras do nordeste do Brasil. Crescido na casa dos avós paternos depois da trágica perda da mãe com um ano de idade, escuta diariamente as histórias que os mais velhos contam, no alpendre, balançando nas suas redes, aos mais novos sentados de pernas cruzadas curiosos de conhecer e assimilar a sabedoria deles. É neste contexto que a família, os amigos e as relações revelam-se para o artista a essência da vida de um homem. Os primeiros desenhos vêm realizados entre cinco e seis anos, para sua irmã mais nova: são cenários teatrais onde ela pode ambientar as histórias das quais são protagonistas as suas bonecas.

Depois dos estudos primários em um colégio de Crato, distante 120 km da fazenda, e do liceu clássico em Fortaleza, aos dezoito anos, Bruno comunica a seu pai, fazendeiro de enésima geração, a decisão que modificará o curso da sua vida. Decidiu ir para o Rio de Janeiro, 3000 km de distância, para estudar na mais antiga e melhor Academia de Belas Artes do país, pois desejava tornar-se um artista. Mesmo sem compreender a decisão do filho, Manoel Pedroza o apoia incondicionadamente, dando-lhe assim a oportunudade de formar-se em História da Arte, Filosofia e Arqueologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Nestes anos, de 1969 a 1975, o artista aproveita das férias de verão para viajar e explorar a América do Sul, conhecendo lugares, pessoas, culturas e histórias diferentes, que o enriqueceram na mente e no espírito. Visita a Argentina, Chile, Bolívia, Equador, Perú. Os estudos arqueológicos despertaram a sua curiosidade e o exortam com interesse a aprofundar-se no estudo da cultura e arte dos Incas e outras civilizações pre;colombianas na America do Sul. Tudo isto influencia a arte de Pedrosa, que nestes anos de estudos e pesquisas dedica-se ao desenho figurativo que representam a alma dos lugares que conhece e da outra em desenhos acadêmicos surrealistas, que o levam a olhar seu âmago, sobrepondo imagens e pensamentos, colocando à prova suas capacidades formais.

Pode parecer paradoxal que um artista contemporâneo nutra uma paixão profunda pela arqueologia e a história, mas não é assim. O percurso artístico de Pedrosa se evoluiu ao longo de todo o arco da sua vida e ainda não se concluiu. Pedrosa nasce desenhista e inicialmente as suas obras representavam aquilo que atirava sua atenção no mundo que o circundava, da antiga e tradicional realidade cearense ao contemporâneo e frenético mundo cosmopolita do Rio de Janeiro. A chegada nesta cidade nos anos ’70 levou-o a conhecer muitas pessoas do mundo intelectual da época, como Rachel de Queiroz, Jorge Amado, Burle Marx, e qualquer ano depois, Pietro Maria Bardi, crítico de arte e diretor do Museu de Arte de São Paulo (MASP), mentor e adepto do jovem Pedrosa, o suficiente para organizar uma série de exposições dos seus desenhos nos Estados Unidos e México. O estudo na Acadêmia e a frenesia da nova vida o exorta a experiementar, passando do monócromo à cor, do desenho figurativo essencial ao desenho surrealista, introspectivo, quase um prelúdio às transformações futuras. Contudo as viagens através da história, a Ouro Preto, a Machu Picchu, a Oruro, o mantém arraigado à tradição. Este mesmo amor pela tradição o leva a realizare uma pesquisa que prolonga-se à trinta anos: a reconstrução genealógicca da sua família das orígens, desde 1270 em Portugal e no Brasil depois de 1600, a hoje.

Terminado o período de estudos na universidade, Pedrosa está a procura de alguma coisa, não só de um contato mais profundo e sincero consigo, mas de um estilo de vida mais sereno. Decide assim, em 1976, de entrar para o Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro, aonde restará por cinco anos. É aqui que Raimundo Pinheiro Pedrosa se transforma em Bruno, nome dado a ele pelos monges pelas suas afinidades caracteriais com seus mais célebres antecessores, São Bruno e Giordano Bruno. Nestes anos Bruno continua a trabalhar, realizando uma série de desenhos sobre o mosteiro, sucessivamente publicados em um álbum, mas ao mesmo tempo aproveita de toda e qualquer oportunidade para aprender e afinar as suas capacidades intelectuais e manuais, oferencendo-se como assistente biliotecário e trabalhando no laboratório de encadernação. No mosteiro não encontra o que procurava e quando se aproxima o momento de fazer o voto solene e definitivo decide voltar ao mundo.

Recomeça de onde tinha deixado, abre seu atelier ao público e conhece Elinor, com quem se casa em 1982, e que se revela como diz o artista “uma presença insubstituível na minha vida”. A mudança na vida se reflete nas obras, encerra definitivamente a fase de retratos, telas nas quais a semelhança com os personagens retratados são tão precisos quanto distorcidas e irreais são as cores que utiliza. Deste periodo faz parte o retrato de João Paulo II, hoje no Vaticano.

Juntamente com a mulher, em 1987, decide de transferir-se do Rio de Janeiro a Nova Friburgo, onde Pedrosa possui um atelier mergulhado no verde. Esta reviravolta pessoal aproxima o artista à pintura, o seu estilo muda, o desenho continua a ser o alicerce das obras, mas o fulcro da sua atenção se põe nas cores.

Em 1990 uma nova e importante decisão: a Europa. Bruno se transfere com a família para Busca, provincia de Cuneo, cidade natal do tenor Giovanni Garnero, seu sogro. No Piemonte Bruno sente-se em casa: ama os campos de papoulas, os aromas da terra, as montanhas. Encontra aqui, do outro lado do mundo, alguns valores fundamentais da sua educação: a sabedoria dos mais velhos, a pacata dignidade das pessoas, a importância das tradições. E ainda uma vez sua arte se modifica com ele. Os desenhos deste periodo mostram pequenos detalhes das cidadezinhas da região, mas os quadros exprimem o tumulto dos seus sentimentos e tornam-se abstratos. São titubeantes, compostos, estruturados, mas abstratos. Pedrosa emboca uma estrada sem retorno. Deste momento em avante sua arte se modificará muitas vezes, mas não tornará jamais ao figurativo, que abandona completamente no inízio dos anos 90.

O artista encontra na pintura abstrata seu instrumento de esperimentação, chegando a exprimir não mais a essencialidade do que vê, mas as suas emoções diante das experiências da vida. Sua arte cresce com ele, é influenciada pelos seus estudos, viagens, descobertas. Assim Bruno Pedrosa reinventa-se continuamente navegando por todos os continentes das artes e do mundo, da pintura à escultura, da América Latina à Europa, atravessando o vidro, a cerâmica, o bronze, a joalharia, os totens em papel, passando pelo Brasil, Estados Unidos, Itália, Holanda, França, Espanha, Potugal, Belgica, Alemanha.

Se, portanto, sua obra evolui no tempo em estruturas e formas sempre diversas, influenciadas pelos períodos mais tranquilos ou angustiados da vida, resta inalterada sua habilidade técnica e manual, que se manifesta no refinamento dos detalhes, na precisão dos contornos, na firmeza das linhas.

Em 1991, a família Pedrosa se transfere a Bassano del Grappa, no coração do Veneto, onde o artista encontra tudo aquilo que necessita para se exprimir. Veneza revela ao artista a descoberta dos vidros de Murano, que o conquistam pelas cores vibrantes. Nasce assim a colaboração entre Bruno e Oscar Zannetti, mestre vidreiro, que o ajuda a transportar ao vidro sua expressão na pintura. Em Verona, Bruno realiza suas esculturas em bronze, fascinado pela secular tradição da elaboração do metal e das patinas inovativas que se podem realizar.

Nos momentos felizes pinta. Nos momentos de desespero cria esculturas plásticas e enérgicas. Nos momentos de pesquisa espiritual, pessoal e artística, desenha.

Na serena tranquilidade das férias de verão em Saint Tropez Pedrosa desenha, expressão artísica da sua contemplação dos lugares e das cores ao seu redor, realizada com a precisão e a concentração que só a paz interior pode dar.

Contrariamente, quando da morte prematura do seu irmão ocorrida em 2006, Pedrosa se torna incapaz de enfrentar a tela, o espelho da sua alma, e por um ano não pinta. Neste momento de sofrimeno, sua necessiadade expressiva muda com ele e nasce assim uma série de esculturas em vidro de Murano. Cada obra é realizada graças ao esforço físico do artista, que com toda as suas energias e o peso do seu corpo esculpe o vidro talhando-o com esmeril. Somentte depois de ter liberado com impeto a sua raiva, sua dor, o artista volta a pintar, mas depois desta pausa sua pintura se transforma e revela uma nova maturidade.

Bruno recolhe nas suas novas pinturas tudo aquilo que o universo das obras escultoricas ensinou-lhe: a luz brilhante e cativante dos vidros de Murano se encontra na escolha da tinta à óleo, o perfeito equilíbrio formal das obras em latão inspira a evidente importância dos volumes e da profundidade ótica; a concreteza do impasto da terracotta, que é a base das esculturas de bronze e mármore, dá vida a uma nova utilização das cores, não mais diluídas, mas corposos e voluméricas.

Compreendemos assím que o estilo de Pedrosa é unico e bem delineado, as suas inumeráveis expressões artísticas representam igualmente a sua pessoa, complexa e essencial ao mesmo tempo. É portanto inútil e superfluo procurar nas suas formas um significado concreto, já que estas mesmas são a sua arte, sua visão do mundo, sua vida.

Fonte: http://brunopedrosa.com/

bruno pedrosa - quadro 1
bruno pedrosa - quadro 2
bruno pedrosa - quadro 3